E sem música, como é que se vive ?

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26.7.11

Ficção ?

É a minha autodestruição em cena, e eu assisto friamente aqui de longe. Vejo na platéia a ansiedade e, ao mesmo tempo, a indiferença quanto ao que está por vir. Aos poucos eu perdi minha vóz e a vontade de dizer, de um modo que hoje não há mais quem possa me ouvir. Parece um teatro de falas ensaiadas, algo irreal. Mas ninguém sabe que é a minha própria vida se destilando, se perdendo entre ficção e realidade. E por trás de cada sorriso forçado, cada gesto perfeitamente executado, de acordo com o esperado, há um alguém frágil e vulnerável, sem imunidade à nada, sem capacidade de ação, sem iniciativa, sem felicidade alguma. Um alguém tão falso e inexpressívo, tão sem amor por nada, nem por si mesmo. É o meu próprio corpo alí, sendo usado, teatralmente, demonstrando coisas não sentidas, sem nenhuma verdade. Marionete, fantoche... fazendo coisas que não são o que realemente se quer fazer. "Qual é o meu papel de hoje?" É o que eu me pergunto todas as manhãs. Mas ninguém sabe o que se passa na minha cabeça quando eu fecho a porta do meu quarto e deito a cabeça no travesseiro. Ninguém sabe quantas lágrimas passam pelo meu rosto enquanto ninguém pode ver. Ninguém sabe a verdadeira vontade que eu guardo em mim, ninguém sabe o que eu sou quando me isolo do mundo. Sorrir não significa estar feliz, dizer "eu te amo", não é sentir amor. Mas tudo isso faz parte do meu show, da minha novela real, ou irreal do dia-a-dia. Tudo planejado calculadamente. E eu assisto a tudo de camarote, a minha própria destruição, a minha própria vida sem sentido, como um quebra-cabeça desmontado. A realidade é tão inaceitável, cruel e assustadora, que atuar se tornou mais humano. Enquanto eu atuo, há menos frieza, mais emoção, mais vida na minha própria vida... E, mais uma vez: "Qual é o meu papel de hoje?"

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